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Certa feita, há alguns bons meses, conversava com um amigo sobre as inúmeras revoluções que a internet havia feito na vida e no dia-a-dia das pessoas. No meio da discussão, meu amigo me disse uma frase que eu guardo até hoje:

Hoje em dia você não está conectado; você é conectado.

Considero isso uma verdade, para o bem e para o mal. Sobretudo para o mal.

O caso ENEM

Esse último fim de semana foi um dia importante na vida dos proto-adultos-futuros-universitários: foi o dia do Exame Nacional do Ensino Médio, o famigerado ENEM.

A despeito das piadas anuais para com as pessoas que chegam atrasadas e perdem a chance de realizar o exame, esse ano – como no ano passado – houve um atrativo a mais: as eliminações em decorrência de postagens em redes sociais.

A verdade, nada mais que isso.

A verdade, nada mais que isso.

Explico: seguindo um ponto do Edital da prova, os candidatos estavam proibidos de usar celular durante a execução da prova, com pena de eliminação. Até aí, nenhuma novidade, até porque eu passei por isso quando fiz a prova lá em meados de 2007.

A novidade era que o Ministério da Educação iria acompanhar as rede sociais para averiguar o uso de celular durante as provas. Isso foi dito ainda na sexta-feira pelo ministro da Educação, Aloízio Mercadante.

No sábado, qual não a surpresa geral quando começaram a pipocar na internet os inúmeros casos de alunos que, durante a prova, tiraram fotos da mesma e postaram em Facebooks e Instagrams afora. Os casos emblemáticos foram compilados e podem ser vistos aqui.

E, como era de se esperar, quem via do lado de fora tais ações se perguntava: por quê?

O Facebook e o pior de nós

Uma das frases que mais uso ultimamente é que o Facebook exacerba o que tem de pior em nós.

E não, essa não é uma crítica ao site, do qual sou fã e utilizo bastante. Como quase todo mundo na internet, o Facebook é minha ferramenta padrão de comunicação com meus amigos, bem como informação e debate. Acho-a ótima para isso.

Meu ponto vai diretamente às pessoas. E o caso do ENEM só reforça isso.

Pense bem: o que faz com que alguém, durante uma das provas mais importantes da sua vida – o que é fato, já que o ENEM hoje garante o acesso às universidades -, vá se preocupar não em resolver a questão 10 de Matemática, mas sim em postar no Instagram uma foto se desejando sorte?

Facebook-Hashtags

É uma resposta bastante simples: necessidade de atenção.

Em um excelente artigo, o Leonardo Sakamoto destrincha esse novo comportamento do século XXI de maneira simples, mas, na minha opinião, certeira: a vida, para fazer sentido, precisa ser compartilhada nas redes sociais e ser “aprovada” via likes, tweets e afins. Sem isso, a experiência vivida se torna incompleta.

Macacos de terno

Tem dois filmes que eu gosto muito que trabalham bem essa idéia da carência humana e da nossa constante necessidade de aprovação. Não que seja o ponto fulcral dos filmes, mas está presente.

O primeiro é Antes do Amanhecer, do Richard Linklater. Lá pelas tantas do filme, enquanto os dois personagens passeiam por Viena e papeiam, a mulher, Celine, em meio a uma discussão sobre o amor, se questiona:

Isn’t everything we do in life a way to be loved a little more?

O segundo filme – este sim, que trata mais dessa questão – é Revólver, do Guy Ritchie. Na melhor parte do filme, o personagem do Jason Statham faz um monólogo sobre a sua concepção de ego. Vale a pena ver a cena toda, mas fica o destaque para a frase final:

Cos we’re just monkeys wrapped in suits, begging for the approval of others.

Vejo a primeira citação de forma positiva; a segunda, negativa. E baseada na última, fica o meu pitaco da vez:

Abra seu Facebook e olhe as últimas coisas que aparecem no seu feed da timeline. Avalie se aquele conteúdo ali é realmente interessante ou se só é mais uma forma de pessoas chamarem atenção para si de forma barata.

E se você comesse sem mostrar pra todo mundo?

E se você comesse sem mostrar pra todo mundo?

Agora avalie as suas postagens e faça o mesmo procedimento.

Porque – e digo isso de verdade – se o de mais interessante que você pode compartilhar é a foto do seu sushi com uma hashtag aleatória, tem algo de muito errado com a sua vida.

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